Divórcio: efeitos a longo prazo em crianças e adolescentes
Neste artigo, apresento os principais achados do estudo longitudinal de 25 anos de Judith S. Wallerstein sobre o impacto do divórcio na vida dos filhos. De forma clara e acessível, mostramos como a separação pode afetar crianças e adolescentes no desenvolvimento emocional, no comportamento e na formação de vínculos, com efeitos que muitas vezes reaparecem na vida adulta. Ao final, oferecemos uma leitura pastoral à luz da doutrina católica, recordando com Santo Tomás de Aquino que a família é o “útero espiritual” onde os filhos aprendem a amar, confiar e perseverar.
Emanuel Martelli
2/26/20267 min ler


Durante décadas, repetiu-se uma ideia tranquilizadora: a de que, após a separação, “com o tempo tudo volta ao normal” e de que os filhos, de algum modo, “acabam se acomodando”. Contudo, a pesquisa longitudinal de Judith S. Wallerstein — uma das mais extensas e clinicamente rigorosas já realizadas sobre o tema — obrigou a reconsiderar essa narrativa. Suas conclusões não descrevem o divórcio como um episódio breve, que se supera e fica para trás, mas como uma experiência capaz de reconfigurar o mundo interior do filho e projetar seus efeitos ao longo dos anos, com intensidade particular quando o indivíduo chega à vida adulta e precisa enfrentar a tarefa de amar, confiar e construir um lar estável.
Wallerstein e sua equipe acompanharam 131 crianças (de 3 a 18 anos no momento da separação), pertencentes a 60 famílias que se divorciaram na Califórnia no início dos anos 1970, e seguiram sua trajetória por um quarto de século, até que essas crianças se tornaram adultos entre 28 e 43 anos. A pesquisa não se apoiou apenas em questionários curtos. Baseou-se em entrevistas clínicas longas, repetidas em diferentes fases do desenvolvimento, capazes de captar nuances emocionais, decisões de vida e temores profundos que muitas vezes não aparecem em “checklists” de sintomas. No caso dos menores, o método incluiu sessões em uma sala de brincadeiras com materiais que permitiam expressar o que não conseguiam dizer com palavras: casas de boneca, fantoches, desenhos, cenas imaginadas. Professores também foram entrevistados e, com o passar dos anos, reconstruíram-se relatos pessoais e familiares com um nível de detalhe incomum para uma pesquisa de longo prazo.
Um elemento crucial apareceu ao final do acompanhamento: foi incluído um grupo de comparação de adultos da mesma comunidade que cresceram em famílias intactas, o que permitiu observar com mais nitidez a distância entre as duas experiências de criação. O contraste não foi apresentado como uma condenação moral simplista, mas como uma constatação clínica: crescer em uma família que permanece unida — mesmo com dificuldades — tende a oferecer um “marco” formativo distinto, sobretudo quando chega o momento de tomar decisões decisivas sobre amor, sexualidade, compromisso, casamento e paternidade/maternidade.
Infância: surpresa, desorganização e uma conclusão que fica gravada
Nos primeiros meses e anos após a ruptura, o estudo descreve uma mudança de vida “quase da noite para o dia”. Não é apenas a convivência que se altera: mudam rotinas, casas, regras, horários, escolas, amizades, economia familiar e a disponibilidade emocional dos adultos. Wallerstein observou algo recorrente em diferentes idades: justamente quando a criança precisa de amparo para entender o que aconteceu, ela frequentemente encontra uma parentalidade reduzida, porque os pais estão absorvidos pela própria dor, pelo estresse jurídico e pela reorganização da vida.
Aqui aparece uma das frases mais duras que atravessa a pesquisa: muitas crianças chegam a uma conclusão que as assusta e que depois reaparece na vida adulta: “os relacionamentos pessoais não são confiáveis”. Não se trata de um pensamento abstrato, mas de uma “lição emocional” aprendida pela experiência: se o vínculo mais íntimo — o de pai e mãe — se rompe, então qualquer vínculo poderia se romper. Essa ideia permanece como um fundo de insegurança que, com o tempo, torna-se um filtro para interpretar o mundo.
O estudo também aponta que a vida após o divórcio raramente é “linear”: cerca de dois terços dos participantes viveram novas convivências, novos vínculos, segundas e terceiras uniões — e também novas rupturas. Em menos de 10% dos casos, os filhos sentiram que uma segunda união estável os incluía plenamente e lhes devolvia uma experiência familiar consistente. Essa instabilidade sucessiva nem sempre faz barulho na infância; às vezes, torna-se um peso mais evidente com o passar dos anos.
Adolescência: menos proteção, mais risco e feridas que buscam anestesia
Quando essas crianças chegaram à adolescência, o estudo registrou um padrão preocupante: menos supervisão, regras mais fracas ou inconsistentes e maior probabilidade de condutas de “acting out” (comportamentos disruptivos). Em muitos lares não havia horários claros, ou uma punição em uma casa não era sustentada na outra. Isso não significa que todos os adolescentes “se percam”, mas sim que o período — já turbulento por natureza — torna-se mais vulnerável quando falta uma unidade educativa.
No caso de muitas adolescentes, a pesquisa descreve uma busca intensa de afeto masculino, não tanto pelo ato em si, mas pelo desejo de se sentirem amadas, escolhidas, “acolhidas”. Em paralelo, observou-se uso mais precoce e mais intenso de álcool e drogas em comparação com pares de famílias intactas. O dado é apresentado com sobriedade clínica: não como estigma, mas como sinal de fragilidade afetiva e de necessidade de contenção em uma fase em que o coração busca pertença.
Há ainda um elemento silencioso que, segundo Wallerstein, marca muitos: a adultização precoce. Vários filhos mais velhos assumiram responsabilidades domésticas e emocionais: cuidaram de irmãos, sustentaram um pai ou uma mãe abatidos e aprenderam a “ser fortes” cedo demais. Anos mais tarde, muitos descreveram essa etapa com uma frase contundente: “o dia em que eles se divorciaram foi o dia em que minha infância terminou.”
Vida adulta: o “efeito adormecido” e o medo de amar
A conclusão mais “inesperada” do estudo surgiu quando os participantes chegaram à vida adulta. Contra a suposição de que o divórcio é uma crise aguda que depois se supera, Wallerstein mostrou um fenômeno tardio: na hora de construir uma vida amorosa estável, muitos foram assaltados pelo medo. A constatação central é formulada com clareza: o divórcio dos pais impacta negativamente a capacidade de amar e ser amado dentro de um relacionamento duradouro e comprometido.
Muitos adultos relataram pânico diante do conflito: qualquer discussão parecia o começo do fim. Outros descreveram uma sensação persistente de que a felicidade “não dura”, aquilo que Wallerstein chama de “medo de que caia o segundo sapato”: deitar-se contente e acordar temendo que aquilo que se ama já não esteja. Esse temor, dizem, cresce justamente quando há mais amor, porque o amor os torna mais expostos à perda.
Há também uma dimensão educativa concreta, com consequências reais: acesso e continuidade nos estudos. No acompanhamento, apenas 30% dos filhos do divórcio recebeu apoio financeiro total ou parcial consistente para o ensino superior, frente a 90% do grupo de comparação. E o resultado final foi uma diferença marcante: cerca de 57% alcançou diploma universitário, contra 90% no grupo de famílias intactas. A frase de um jovem resume a experiência com crueza: “Eu paguei pelo divórcio dos meus pais.”
No plano afetivo, a pesquisa notou diferenças também nos estilos de resposta: um número significativo de homens tendeu a evitar relacionamentos ou a se retirar; em muitas mulheres ocorreu o movimento oposto: entrar em relações de maneira impulsiva, às vezes com homens problemáticos, como se o amor precisasse ser “garantido” antes que desaparecesse. O trágico é que, em ambos os casos, a raiz era a mesma: o medo de repetir a história familiar.
Ao comparar resultados, o estudo registrou que, ao final do acompanhamento, 40% dos filhos de divorciados que se casaram se divorciou, enquanto no grupo de comparação o número foi muito menor (cerca de 9%). Não se trata de determinismo — muitos construíram relações estáveis e satisfatórias —, mas sim de um risco aumentado que merece atenção.
Uma leitura pastoral: a estabilidade conjugal como bem dos filhos
O ensinamento da Igreja sobre o matrimônio — um homem e uma mulher para sempre — não é um slogan romântico, nem uma exigência “idealista” desconectada da vida real. No seu núcleo, é uma defesa do mais frágil: o filho, que precisa de um chão firme para crescer. O estudo longitudinal de Judith Wallerstein, com linguagem clínica e relatos concretos reunidos ao longo de 25 anos, confirma algo que a sabedoria cristã sustenta há séculos: a estabilidade conjugal não é apenas um bem para os esposos; é um marco protetor para o desenvolvimento afetivo, moral e educativo dos filhos.
Aqui ganha força uma imagem profundamente realista de Santo Tomás de Aquino, frequentemente recordada na tradição: a família é o “útero espiritual” da criança. Assim como a criança precisa de um útero para o desenvolvimento físico, depois precisa de um lar estável para formar sua vida interior: a confiança básica, a capacidade de amar, o sentido do compromisso, a paciência diante do conflito, o aprendizado do perdão e a perseverança cotidiana. Quando esse “útero espiritual” se rompe, o dano nem sempre aparece de imediato; muitas vezes se manifesta mais tarde, como medo da perda, insegurança afetiva ou dificuldade de construir vínculos firmes. Por isso, pesquisas desse tipo são tão valiosas: mostram que o impacto do divórcio pode ser de longo prazo, mesmo quando o entorno supõe que “tudo já ficou para trás”.
Se queremos uma sociedade mais saudável, o caminho não começa quando a crise já explodiu, mas antes: numa preparação séria para o matrimônio, numa educação do caráter e da vontade, num namoro responsável em que os jovens aprendam a se conhecer de verdade e a compreender o compromisso que assumem. Não basta o sentimento; é necessária maturidade, diálogo aprendido, virtudes reais, visão de futuro, capacidade de sacrifício e senso de missão: formar um lar para a prole.
O divórcio —ensina Wallerstein— pode “libertar” alguns adultos de situações difíceis, mas suas consequências podem perdurar nos filhos. Em muitos casos, o custo emocional reaparece anos depois, quando a pessoa tenta amar sem medo e construir aquilo que não viu: uma fidelidade concreta, cotidiana, paciente. Por isso, a missão educativa da Igreja — e de toda comunidade que ama a família — é clara: salvaguardar o matrimônio, não por nostalgia, mas por caridade para com as crianças e por realismo diante dos efeitos da ruptura.
Em síntese, este estudo reforça uma convicção central: cuidar da família é cuidar do “útero espiritual” onde os filhos aprendem a viver, a amar e a esperar. E essa tarefa exige verdade, acompanhamento e uma formação matrimonial mais consciente e profunda, capaz de evitar casamentos precipitados e, com isso, contribuir para diminuir o doloroso ciclo do divórcio — que deixa tantas feridas na infância e na adolescência.
Referência principal: Judith S. Wallerstein & Julia M. Lewis, The Unexpected Legacy of Divorce: Report of a 25-Year Study (2004).
Emanuel Martelli, Neuropsicopedagogo
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